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21 de setembro de 2016

Valjean e uma (possível?) pedagogia da misericórdia

Na minha playlist do Spotify está a banda sonora do filme musical Os Miseráveis e, por isso, ao longo do dia, acontece-me muitas vezes deter-me numa ou outra frase desta grande obra de Victor Hugo. Hoje de manhã ouvi pela enésima vez o Who am I. A dada altura, na luta interior que combate, Jean Valjean pergunta-se quem é ele próprio diante da iminente condenação de um inocente no seu lugar.

retirado daqui
Nos seus pensamentos cantados, Valjean recorda o episódio que lhe marcara a vida - o Bispo Myriel perdoou-lhe um enorme crime, disse-lhe que ele pertencia a Deus e convidou-o a oferecer toda a sua vida para reparar o mal feito. Todo o enredo decorre deste encontro do protagonista com o Bispo: o amor gratuito a Fantine, a paternidade de Cosette, a justiça e a verdade na relação com todos. Tudo, na vida de Valjean, nasce da consciência de que "My soul belongs to God, I know/ I made that bargain long ago/ He gave me hope when hope was gone/ He gave me strength to journey on”. Só esta posição humana permite que Valjean perdoe intima e verdadeiramente o Inspector Javert que, animado pela justiça e pela moral, se esgota na perseguição a um criminoso que deve ser punido.

Tenho pensado muito nesta possível pedagogia da misericórdia. Será possível viver assim nas nossas escolas, com os nossos alunos, com os nossos colegas? Será verdade que só o perdão regenera a pessoa?

Javert não era mau; era um homem de regras, de ordem, de “justiça”. E Valjean não era bom; tinha efectivamente roubado pão, tinha efectivamente roubado o Bispo, tinha efectivamente permitido que Fantine fosse despedida. Valjean não se transformou num homem bondoso e disciplinado, não. No entanto, Valjean não conseguia arrancar da sua consistência o encontro com o Bispo que o devolveu à sua natureza original, à sua dimensão real, à relação com o Pai. 

Com os alunos, podemos escolher se queremos convidá-los a uma vida disciplinada e ordenada ou se queremos avivar-lhes no coração o desejo de encontrar a sua natureza original. 

Um aluno muito querido que temos, o F., passou por uma fase muito difícil, com implicações patológicas e psicológicas graves. Os seus professores, com a sua família, procuraram ajudá-lo a caminhar, a dar passos, a vencer o(s) mal(es) que o afligiam mas que não o definem como pessoa. 
Terão falhado em muitas coisas menos em uma. Perdoaram-no sempre. Sempre. Sempre que ele lhes bateu, sempre que ele os insultou, sempre que ele partiu “a loiça toda”. Perdoaram-no e no dia seguinte acolheram-nos de braços abertos. Ensinaram-lhe a dizer todos os dias à noite “obrigada, Senhor, porque eu sou uma maravilha que Tu fizeste”.
Certo dia, um colega estava a portar-se mal e a professora ralhou com ele. O F. olhou para ele e disse que não se preocupasse porque lhe ia acontecer como a ele “que era um monstro e agora tinha-se tornado num príncipe”. 
A tentação de discipliná-lo espreitava todos os dias mas estou agradecida por termos arriscado na pedagogia da misericórdia. Que nos interpela a todos na nossa verdadeira natureza. Afinal, não somos príncipes e princesas...?

Catarina Almeida

27 de janeiro de 2016

Literatura e Ciências? Fácil., por José Carlos Feitor


É recorrente todos os anos ouvir os alunos a dizer que até sabiam a resposta mas não perceberam o que estava no texto. Esta frase deve ser a mais interdisciplinar porque é repetida de forma sucessiva em diversas áreas disciplinares. Até na Biologia e Geologia. Quantas vezes os alunos deixam/erram uma resposta porque não perceberam o que estava descrito nas inúmeras frases que compõem o texto introdutório de um grupo de perguntas. Pois bem, precisamos fazer algo e só se faz caminho, caminhando.

Foi o que a Professora Susana e eu decidimos fazer: um teste de Literatura e Ciências. Era preciso escolher textos que fossem transversais aos conteúdos trabalhados nas duas disciplinas. Fácil. Era preciso ver tipologias de perguntas que fossem coerentes com toda uma estrutura única. Fácil. Era preciso diversificar as perguntas para que os alunos conseguissem responder de diferentes formas. Fácil. Foi preciso sentar várias vezes para discutir a forma, o tamanho, a cotação, os critérios, a duração. Fácil. Era preciso mostrar o teste a outros professores, discutir críticas aos textos e às perguntas, alterar o que devia ser alterado. Fácil.
Um processo que durou algumas semanas e que contou com várias versões: V1, V2, versão praticamente final, versão quase final, versão finalíssima e, finalmente, versão final. Na véspera ainda descobrimos algumas gralhas e algumas incorreções que não podiam seguir num teste de Português.
Edward Hopper, Pessoas ao Sol, em Smithsonian Institution, em Washington
Ao longo do processo foi necessário ir preparando alunos, pais e restantes professores para a ideia de fazer um teste que misturasse duas coisas completamente distintas. Foi relativamente fácil pois o coração fica mais calmo quando a razão está preparada para compreender porque queremos fazer assim. Bastava olhar para nós. A visão atual, mais tecnológica, leva-me a comparar o entusiasmo que ambos sentíamos (e que era impossível de esconder) à experiência de ter um telemóvel novo, em que não conseguimos fazer/pensar em mais nada enquanto não o exploramos até à exaustão. E foi esse entusiasmo que os acalmou. “A Professora Susana e eu temos a certeza de que é uma coisa boa. Confiem”. Foi com este entusiasmo e certeza de que podiam confiar em nós, que sabíamos que só os ia ajudar a ver a realidade de uma forma maior, não compartimentada, que os educámos, diariamente.
Finalmente foi aplicado. No final lá estávamos nós, no corredor, a observar as caras deles enquanto iam saindo. Esboçavam um sorriso que, à primeira vista, era totalmente ilegível. Será de nervosismo ou de contentamento? 
Havia de tudo: os que adoraram os textos, os que eram indiferentes, os que tinham detestado. No final das contas, o saldo será sempre positivo.

José Carlos Feitor
Professor de Ciências Naturais

11 de dezembro de 2015

1 de dezembro de 2015

Exames do 4º ano: assim não, por Catarina Almeida

Tudo indica que, em 2015/16, os alunos do 4º ano não vão ser examinados externamente por provas comuns e centralmente elaboradas. A decisão substancial parece-me razoável; o processo que a sustentou é absurdo e demonstra desinteresse sobre o funcionamento das escolas e sobre a dinâmica de trabalho dos professores.

O 1º Ciclo é um percurso de quatro anos marcado pela figura do professor que empresta os olhos, a inteligência e o coração aos alunos que o seguem na aventura de aprender a ler, a escrever e a contar. São anos decisivos para a aprendizagem: aprende-se, em termos essenciais e elementares, a enfrentar o mundo: a relacionar-se com as letras e os números, que se transformam progressivamente em discursos e raciocínios, em diferentes linguagens e sob perspectivas diversas do conhecimento; aprende-se a pensar, a tomar posições, a relacionar-se com os amigos, a ganhar bons hábitos e rotinas; aprende-se a ser autónomo. Aprende-se tudo o que permitirá, a partir do 2º Ciclo, a densificação e especificação das matérias e dos conteúdos. Aprende-se tudo isto e muito mais. Ou não se aprende. E o factor decisivo para desencadear estes processos é, a meu ver, o professor do 1º Ciclo que tem de decidir os melhores métodos e tomar as melhores decisões para cumprir a sua tarefa.

Neste sentido, os exames nacionais do 4º ano podem introduzir uma confusão sobre a natureza do percurso do primeiro momento da escolaridade, definindo uma meta que é o exame nacional e centralizado, obrigando professores e escolas a adaptar os olhos, a inteligência e o coração a critérios uniformizados. Penso que, por outro lado, é fundamental que os alunos do 4º ano sejam chamados à consciência de terminar um ciclo e que sejam avaliados sobre os termos em que foram ensinados. A diferença está na centralização e uniformização desse processo em vez de confiar no profissionalismo dos professores que têm essa responsabilidade.

Tudo isto requer reflexão, planificação, organização. E tudo isto implica muito trabalho não lectivo dos professores, que preparam o ano seguinte em Junho e Julho, tomam decisões, fazem escolhas, abdicam de umas coisas em função de outras. Os professores que ensinam o 4º ano em 2015/16 prepararam certamente o ano, sabendo que, em Maio de 2016, os alunos seriam chamados a realizar um exame. Mudar as regras do jogo a meio é uma irresponsabilidade, independentemente da posição de fundo que se tenha sobre o tema.

Em geral, eu não acho mal que haja exames nacionais no 4º ano; só acho melhor que não haja. Ainda assim, tenho a certeza que jogar ao põe-exame, tira-exame, prejudica os milhares de alunos, professores e famílias porque os sujeita às bandeiras que os partidos vão abanando uns aos outros, em jeito de pirraça, num assunto sério demais como a educação e o ensino.

Catarina Almeida

20 de novembro de 2015

Tenho um chocolate dividido ao meio!, por Catarina Almeida

para a minha professora Odete Pinto
 
- Trabalho de casa para amanhã: trazer uma tablete de chocolate!
- Chocolate?! Pode ser branco? – perguntei eu, incrédula.
- Pode. – respondeu a professora Odete, sem floreados, como era ela própria.
 
Eu devia ter oito ou nove anos quando, na minha escola, foi o dia de aprender as fracções com tabletes de chocolate; e por aí devia andar também quando aprendi, na minha escola, a dançar a valsa, o rancho e o vira; na minha escola, aprendia-se a ler e a escrever e também a ir ao centro dos velhinhos ler-lhes histórias e a oferecer-lhes os textos que escrevíamos.
 
- Catarina, quantos chocolates trouxeste?
- Um!
- E quantos quadradinhos tem esse chocolate?
- Vinte e… quatro!
- Divide esse chocolate ao meio. Tens um chocolate ou dois chocolates?
- Tenho um chocolate dividido ao meio!
 
Nesse dia, aprendi que os números servem para descrever a realidade, para a perceber melhor e para poder explorar todas as suas possibilidades e todas as minhas capacidades de a entender. Aprendi, ainda, que isso me dava um gozo incrível.

Na minha escola, havia a professora Odete, que nos ensinava a viver assim. Tinha um olhar unitário sobre a vida: não me lembro de estudar “Língua Portuguesa” ou “Matemática” ou… “Meio Físico e Social” mas ainda consigo trazer à memória o entusiasmo que vibrava em mim quando estava prestes a saber o que ia descobrir naquele dia.

Na minha escola, fui introduzida ao conhecimento elementar, primário e essencial do mundo através da sua beleza: o rigor e a precisão da gramática serviam para sustentar a objectividade e transparência do vocabulário e dos textos; a linguagem matemática era uma possibilidade de contar e relacionar o mundo de forma progressivamente mais abstracta, a natureza, a história e a cultura, o cuidado com os mais necessitados, a amizade, tudo me fazia crescer feliz!
Lembro-me que no último dia de aulas da quarta classe estava triste por me ir embora, mas não queria ficar. Queria ir conquistar o mundo e – disse para comigo – ser como a professora Odete!
Catarina Almeida

10 de novembro de 2015

Satisfação, por Madalena Fontoura

Discutia-se educação. Escolhas curriculares, critérios, métodos, resultados. A certa altura, foi defendido o ensino de uma disciplina que me parecia dispensável por não acrescentar grande conhecimento e ser fácil de aprender fora da escola. Perguntei porquê. A resposta foi: porque dá satisfação. Satisfação? Que critério é esse? A professora experiente que o defendia explicou a sua ideia. Para os alunos é importante fazer a experiência de ficar a dominar aquilo que aprendem. Como há disciplinas mais exigentes onde é difícil alcançar esse objectivo, deve haver outras onde o acesso a esse gosto seja mais fácil.
 
Parece simples e óbvio. Mas para mim foi uma provocação. No meio de uma cultura de facilidade e imediatismo, tendo a considerar redutoras as objecções que se baseiam na dificuldade e na aridez do caminho a percorrer para atingir o ideal. Parece-me prestar um serviço aos meus alunos, fazendo-os levantar os olhos acima das resistências mais instintivas, como a preguiça, o tédio, a irresponsabilidade.
 
É justo. Não é mal pensado. Mas, como diz um sábio da nossa praça, o problema nas discussões sobre educação é que todos os lados têm razão. E aquela professora experiente fez-me pensar que é precisa uma experiência de gosto, de vitória, de conquista, para que os alunos percebam como bons e úteis os desafios menos imediatamente atractivos que lhes fazemos. Só tocando o prazer da matéria dominada é que se ganha coragem e esperança para atacar o estudo, enfrentar a dúvida, atravessar a dificuldade.
 
Fazer a ponte entre a pessoa e a realidade, abrindo caminho ao interesse e à curiosidade, tão próprios do humano, é o grande êxito de todo o esforço educativo. E se tudo concorre para entorpecer este passo, então precisamos, mais do que nunca, de arriscar caminhos improváveis, partindo dos alunos concretos que temos diante de nós e das suas circunstâncias.
 
Fiquei com vontade de cultivar em mim uma atenção no olhar, uma sabedoria no avaliar e uma liberdade no escolher. No fundo, a genialidade educativa que vejo em grandes mestres, que são, sempre e antes de tudo, grandes homens.


3 de novembro de 2015

Um coração cheio..., por Madalena Fontoura

As crianças do Pré-Escolar apresentavam o santo protector de cada sala. Umas traziam cartazes e objetos alusivos à história dos santos. Outras tinham aprendido partes da vida deles. A educadora ajudava, fazendo perguntas ou começando frases.
 
Chegou a vez da sala de Santa Teresa de Ávila. Um rapazinho, muito vivo e sorridente, trazia um coraçãofeito com umas bolas de papel encarnado, que representava o coração da Santa. A educadora lá começou as frases para as crianças completarem.
A certa altura: “E Santa Teresa tinha o coração cheio de…”. Resposta pronta e segura do rapazinho do coração encarnado: “… de bolas!”.
 
Os adultos sorriram, divertidos e enternecidos. O miúdo ficou imperturbável. A história da Santa lá chegou até ao fim. E eu fiquei a pensar neste pequeno episódio.
 
Estava tudo certo naquele gesto e naquele método de ajudar crianças tão pequenas a contar histórias tão ricas. Ainda assim, quando aquele rapazinho, que tinha na mão um coração feito de bolas encarnadas, diz que o coração da Santa está cheio de… bolas, tem razão.
A educadora esperava que ele dissesse que estava cheio de amor. Mas isso, ele não sabia bem o que queria dizer. Do que se lembrava bem é que tinham feito, juntos, um coração de Santa Teresa. E estava cheio de bolas de papel encarnado. E agora tinha sido ele o escolhido para levar aquele coração fantástico. Tinha-o na mão e sentia a textura das bolas, muito juntinhas e bem coladas.
 
Não deixa de ser justo que a educadora lhe ensine que há coisas que não se vêem, mas existem e são até mais decisivas do que as que se vêem. Também está muito bem que ela guie a narração de uma história, tentando que ele chegue a dizer as coisas importantes que lhe ensinou. E é ainda tranquilo que ele, aos quatro anos, não consiga dar grandes saltos do visível para o invisível, do superficial para o profundo.
 
Mas aquela resposta dele reacendeu em mim a consciência da força desarmante da experiência. E o desejo de não dar nenhum passo educativo prescindindo dela. 
Madalena Fontoura

26 de outubro de 2015

Uma centelha, por Madalena Fontoura

Recebi por mail um destes filmes que circulam na internet com alguma coisa supostamente invulgar. Era um momento musical com um instrumento chinês que eu desconhecia, o erhu. Com apenas duas cordas, oferece um som impressionante, que parece voz humana. Não sou entendida em música, mas reparei na tensão daquelas duas cordas. 


Depois de uma semana rica em acontecimentos, desafios e decisões, passei o fim-de semana a pensar no que é a alma da escola, qual é o ponto para o qual tudo converge e de onde tudo parte, qual é o critério à luz do qual se avalia e se reconstrói. À minha memória voltava a tensão daquelas duas cordas, enquanto revisitava três dos momentos da semana.

Uma turma fantástica, com miúdos bons, vivos, amigos, começou o ano cinzenta. Pouco implicados nas aulas, distraídos, desinteressados do estudo, defensivos na correcção. Falei com alguns Professores, com alguns alunos, reuni a turma, fiz perguntas, ouvi respostas. Para mim ficou claro que o ponto é a liberdade: como despertá-la, como vivê-la, como educá-la.

Outubro é o mês das apresentações aos Pais: encontros, que preparamos de modo a que os Pais vejam os Professores em ação, conheçam os programas e passem um momento agradável. É fundamental que a apresentação seja una, tenha ritmo e não se prolongue demasiado. Isso implica um esforço de trabalho em comum. Professores diferentes, com estilos comunicativos distintos, todos com entusiasmo pela sua disciplina e muita coisa a dizer sobre ela, são chamados a um sacrifício de algumas opções, para que o todo resulte bem. Aqui, o ponto é a comunhão: como desejá-la, como propô-la, como desenvolvê-la.

Foi preciso escolher uma obra para trabalhar com um grupo de alunos. Um professor avançou um título. Tinha sido escolhido com todo o cuidado e já havia imensas ideias sobre a forma de explorá-lo. Outros leram. Levantaram interrogações. Não tínhamos todos a mesma perspetiva. Parar e discutir parecia um travão, um obstáculo. Havia várias opiniões e ao mesmo tempo o cuidado de não ferir as dos outros. O ponto era a pertinência de fazer um juízo. Uma experiência que quase nunca é isenta de dor, mas quase sempre é libertadora.

A liberdade, a comunhão, o juízo. Pensei nas duas cordas do ehru, com aquele som de voz magoada, e pareceu-me que uniam toda a reflexão do fim-de-semana e todos os acontecimentos, desafios e decisões da semana.

Parece-me que a alma da escola é a tensão para o ideal. Uma posição que convoca cada momento, cada encontro, cada palavra, cada decisão. Sem pausas, porque a vida não pára. E o alívio desta tensão não descansa, porque sem ela não há beleza. Uma tensão só possível porque o ideal não é um modelo de perfeição tórico, mas uma Presença que, uma vez encontrada, brilha como uma centelha, que, ou se apaga, ou incendeia a vida. 

Madalena Fontoura

12 de outubro de 2015

O Museu já ali ao virar da esquina!, por João Coelho

Há um ano que abracei o projeto de ser professor numa pequena escola situada em pleno Chiado. Fiquei apreensivo com o facto de ser apenas uma turma com os quatro anos de escolaridade na mesma sala. Mas quando fui visitar a escola pela primeira vez, todas as dúvidas se desvaneceram. Ao admirar a vista absolutamente deslumbrante que a escola tem sobre Lisboa e sobre o rio pensei logo que ali seria o local perfeito para ensinar. Era, na verdadeira acepção da palavra, uma janela aberta para o mundo.
Sempre acreditei que a educação vive da experiência, do que nos rodeia, daquilo que os nossos olhos e a nossa razão abarcam. E o nosso horizonte visual é praticamente infinito!
Desde o dia 29 de setembro que estão expostas, em algumas ruas da baixa de Lisboa, réplicas de quadros do Museu de Arte Antiga de Lisboa. Não podia deixar passar esta oportunidade única de ver de perto obras que estão só ao alcance dos visitantes do museu, muitas vezes atrás de um cordão. Estas podemos ver de perto, tocar, analisar cada pormenor do traço do artista. Mas esta experiência não podia ser só pessoal. Sentia a obrigação de a partilhar com os meus alunos! Combinei com os outros professores qual a melhor forma de organizar uma visita. A professora de Artes deu uma ajuda preciosa! Percebemos que não era possível ver todos os quadros e optámos por aqueles que estão mais perto da escola.
Ao ver os alunos com os olhos postos em cada quadro, percebi que tínhamos tomado a decisão correta ao propor aquela visita. Em cada olhar, um novo pormenor era descoberto, uma característica era evidenciada. E a proposta de reprodução de uma das obras foi verdadeiramente uma surpresa. Cada aluno olhou para o quadro e tentou evidenciar na sua folha o traço do artista, o pormenor que mais o tinha chamado à atenção. Se não fossem uns pequenos chuviscos, tinha sido complicado “arrancar” os alunos de perto do quadro.
Cada vez mais tenho uma certeza: as paredes da escola são o Mundo! Tudo o que existe à nossa volta é local de conhecimento!
João Coelho

16 de setembro de 2015

Não a encontrei mas vi os sinais da sua presença!, por Catarina Almeida

Tenho um amigo que mora longe. Aliás, tenho vários. E sinto muito a falta de todos eles. Sentir a falta de um amigo, sentir a sua ausência na pele e, às vezes, com um nó na garganta, é um facto curioso: como me faz muita falta, faço tudo o que posso para o encontrar com frequência, para o ver, o ouvir, saber dele. Sentir a falta da presença dos meus amigos é, paradoxalmente, um recurso valioso. Provavelmente o maior que tenho.

Como este amigo não mora assim tão longe (não como outros, noutros continentes, e outros até no Céu), fui visitá-lo no Verão ele contou-me um episódio simples.

Como todos tinham ido de férias, o meu amigo pensou que a casa não estaria tão limpa e arrumada como ele gostaria para me receber. Apressou-se a organizar a melhor maneira de tratar do assunto mas, quando chegou a casa, estava imaculada. Reparou então que a senhora das limpezas tinha estado lá em casa. Encontrou-a depois na rua e disse-lhe «Reparei que esteve em minha casa! Não a encontrei mas vi os sinais da sua presença!». Este pequeníssimo facto não teria nada de extraordinário se não me tivesse sugerido o ponto-chave para este ano de trabalho…

Percebi que, para propor alguma coisa capaz de desafiar a razão e a liberdade dos meus alunos, é preciso dar dois passos: o primeiro, darmo-nos conta – eu e eles – de que nos falta alguma coisa. O sentimento de incompletude que tentamos disfarçar é o ponto de partida para começar um caminho de descoberta. O segundo passo é a estrada por percorrer. Será, então, uma aventura cheia de momentos em que a realidade é nossa aliada, porque está cheia de fenómenos físicos e naturais, de obras de arte, de desafios culturais que exigem de nós uma hipótese de explicação, uma linguagem específica, uma técnica especializada…

A complexidade dos saberes, a diversidade dos temas e a Beleza que em tudo se encontra são os traços característicos desse Alguém que fez tudo o que existe, que nos fez inteligentes, capax Dei e que deseja a nossa felicidade.
Afinal, o que são as disciplinas, as matérias e os conhecimentos que proponho ano após ano aos meus alunos, senão um caminho para encontrar os sinais da presença de Alguém?...


Catarina Almeida

8 de abril de 2015

Renovar a pedagogia: começar pela formação da Educadora!

«Renovar a pedagogia convencidas de que a Educação, para ser perfeita, tem de ser genética e acompanhar a criança desde os seus primeiros passos. Quisemos, porém, para atingir esse fim, começar pela formação da Educadora».
Maria Ulrich (1957)



Começou ontem a oitava edição da formação O BEBÉ COMPETENTE E OS DESAFIOS EDUCATIVOS. 
A apresentação do curso coube à Professora Deolinda Botelho e a Catarina Almeida.

Obrigado aos que continuam a fazer parte desta aventura connosco!

31 de março de 2015

FMU no Meeting Lisboa 2015

As perguntas que - afinal - não deixámos de fazer acabaram por ser o fio condutor do encontro de hoje. Nascemos com um...

Posted by Fundação Maria Ulrich on Sábado, 28 de Março de 2015

17 de março de 2015

Do meu colega Papa Francisco, por Madalena Fontoura

No sábado passado, o Papa falou a uma associação de professores italianos. Um discurso muito caloroso, que visita os temas que lhe são mais queridos, do amor que acolhe, à preferência pelos mais fracos, passando pelo testemunho de uma humanidade madura e completa.
O Papa chama-nos colegas, porque também ele guarda boas recordações do tempo em que foi professor. É um trabalho belíssimo ver crescer os que estão confiados ao nosso cuidado. Somos como Pais, diz o Papa, sublinhando que ensinar é uma tarefa séria, que requer uma personalidade madura e equilibrada.
Mas não há que temer, porque um professor nunca está sozinho, partilha o seu trabalho com outros professores e com toda a comunidade educativa a que pertence. O mundo muda, a escola muda, diz o Papa, mas há sempre professores cristãos dispostos a empenhar-se na sua profissão com aquele entusiasmo e aquela disponibilidade que a fé no Senhor nos dá.
Como Jesus nos ensinou, toda a Lei e os Profetas se resumem a dois mandamentos: ama o Senhor teu Deus e ama o próximo. E quem é o próximo de um professor? – pergunta o Papa e responde: o próximo são os seus alunos. É com eles que passa os dias. São eles que esperam dele uma condução, um destino, uma resposta – e, antes de mais, boas perguntas!
O Papa apela a uma justa ideia de escola, que além de uma instrução válida e qualificada, é feita de relações humanas de acolhimento e benevolência para com todos. Todos, mas especialmente os mais difíceis, os mais débeis, os mais desfavorecidos. Se amamos só os que estudam, os que são bem-educados, que mérito temos? Qualquer professor está bem com esses. O Papa pede-nos para amarmos mais os que nos fazem perder a paciência!
O que é este chamamento de um professor cristão a não abandonar as periferias da escola à marginalidade, à ignorância, à má vida? A receita do Papa é que a escola seja um ponto de referência, com professores que dão sentido ao estudo e à cultura. Trata-se de não reduzir tudo à transmissão de conhecimentos, mas construir uma relação educativa com cada aluno, que deve sentir-se acolhido e amado pelo que é, com todos os seus limites e potencialidades.
O Papa indica três coisas a transmitir, que requerem um bom professor e que um computador não pode ensinar: compreender como se ama, quais são os valores da vida e quais os hábitos que criam harmonia na sociedade. As escolas, estatais ou privadas, precisam de educadores credíveis, que dêem testemunho de uma humanidade madura e completa. Testemunho, sublinha o Papa, que não se compra nem se vende, dá-se.
É importante a actualização de competências didácticas e tecnológicas, mas o ensino, diz o Papa, é uma relação em que o professor deve sentir-se inteiramente envolvido como pessoa. E encoraja-nos a renovar a nossa paixão pelo homem no seu processo de formação, e a sermos testemunhas de vida e de esperança. Não se pode educar sem paixão, garante o Papa.
Começo esta semana animada pelo amor com que o Papa descreve a minha missão. E especialmente provocada por estas palavras com que termina o discurso: “Nunca, nunca fechem uma porta, escancarem todas, para que os alunos tenham esperança”.

Madalena Fontoura

2 de março de 2015

Porque é que nos trata assim?, por Madalena Fontoura


Passei o fim-de-semana, rodeada de grandes educadores. Um dom inestimável, mas não um acaso. Procuro estas ocasiões porque tenho claro que só educo se me deixo educar.
Desta vez, fiquei desafiada por uma certa professora de Português e Francês, que ensina numa escola estatal de uma pequena cidade nortenha. Contava-me que via o ensino do Francês perder terreno em relação ao Espanhol. Na sua opinião, o motivo é apenas a facilidade da língua espanhola, mais parecida com a nossa. Entende que o Francês é mais enriquecedor para os alunos, mais diferenciador no seu currículo e mais interessante do ponto de vista académico, pelo que resolveu ir à luta e juntar os alunos com ela.

Impressionou-me o seu entusiasmo, tão genuíno, e livre de qualquer pretensão de carreira. Esta Professora é das mais antigas da escola e também dá Português, pelo que a perda de turmas de Francês não lhe causa nenhum prejuízo laboral. Tem várias razões de ordem profissional e pessoal para não se dar a mais trabalhos do que os legalmente exigidos. Mas olha-se para ela e percebe-se que estes discursos, laborais, legais e outros que tais, não têm nada a ver com a sua paixão educativa.
Criou a “Semaine de la Francophonie”, cheia de eventos. Os alunos fartam-se de trabalhar e estão radiantes. Um dos destaques são os crepes, que eles cozinham e vendem, apresentando-se impecáveis nos seus aventais bleu-blanc-rouge. Além do sucesso gastronómico, o lucro paga todos os gastos, incluindo os ditos aventais. O outro destaque é a apresentação de um filme francófono. O que há de especial é que o filme não é projetado na escola, mas sim no auditório municipal, com uma sessão em horário escolar e outra mais tardia para as pessoas da cidade poderem assistir. Um impacto cultural que provoca e atrai.

Mas a professora é conhecida por ser exigente. E aqui há tempos vieram uns resultados nada animadores, com vários alunos abaixo do seu potencial. A professora ralhou. Um dos alunos perguntou: “Porque é que nos trata assim?”. “Assim como?” perguntou ela. “Ralha, mas depois está sempre connosco a fazer coisas”. Com a prontidão com que faz crepes bem franceses, respondeu: “É porque gosto muito de vocês”.

Neste fim-de-semana, a Professora de Francês nortenha e eu, juntamente com umas centenas de pessoas, lembrávamos um grande educador: um padre italiano que, nos anos 50, em plena crise de certezas, deixou o ensino da Teologia no seminário para dar aulas de Religião numa escola secundária. O que começara como um gesto aparentemente insignificante gerou um movimento de jovens e, mais tarde, de adultos, que passou as fronteiras do país e cresce, geração atrás de geração. Um dia, abordado por um jornalista, à porta de um evento, onde era esperado com entusiasmo por milhares de pessoas, à pergunta de “porque é que o seguem assim?”, respondeu, com um sorriso alegre e uma voz firme: “porque acredito no que digo”.

Começo esta semana, pedindo para viver assim. De modo que aquilo que digo, faço e sou brote da riqueza daquilo em que acredito. Como o padre italiano. E o amor aos meus alunos me torne criativa e incansável. Como a professora de Francês.

Madalena Fontoura

23 de fevereiro de 2015

Um coração grande e indomável, por Madalena Fontoura


Três histórias dos últimos dias:
Primeira – apresentando o Colégio a uns Pais, chegámos ao momento de falar da aliança com a família. Disse-lhes que a filha deles é um tesouro que eles só podem confiar a alguém que estimem. E que também nós só podemos educar uma criança, com estima pelos Pais. Que não somos cliente e fornecedor, mas adultos que iniciam um caminho de amizade em torno da belíssima tarefa de educar uma criança. Prometi-lhes que a abraçaremos tal como é, com mais, ou menos, saúde, inteligência, bom comportamento. Que tudo enfrentaremos juntos.
O Pai, que estava mais calado, disse-me: “acho que tenho que lhe mostrar a fotografia da minha filha”. Puxou do telemóvel e ali ficámos os três a desfiar imagens de uma criança risonha e cheia de vida, enquanto eu me comovia por aquele gesto: acabar a conversa a olhar para a criança concreta que ali nos juntava foi um primeiro passo de comunhão.
Segunda – uma Mãe testemunha num encontro de diretores de escolas católicas. Alguém pergunta se não se estará a exigir demais destas escolas, chamadas a ir bem para lá da sua responsabilidade académica. A resposta vem clara e pronta: sim, as famílias têm cada vez mais necessidade de ajuda, esperam muito, pedem tudo. Cabe à escola decidir até onde está disposta a responder.
Terceira – recebo uma mensagem de agradecimento do Pai de uma das alunas com quem passei o fim-de-semana de Carnaval: “assim a minha filha cresce como eu sempre imaginei”.
Lembro-me de Péguy: um homem de 40 anos pode ter desistido de ser feliz, pode ter-se tornado cético e cínico, mas, diante de um filho que nasce, deseja para ele o que já não consegue desejar para si mesmo.
É este desejo que encontro diariamente nos Pais dos meus alunos. Sob as mais diversas formas, da defesa à partilha, da reivindicação ao reconhecimento, da intranquilidade à confiança. Desafio-me a tê-lo como ponto de partida, como critério de exigência, como grito pela totalidade, como esperança inquebrantável. Preciso de maternidade e paternidade para ir ao fundo da missão que me está confiada.
Às vezes, não poucas, olhando assim para as famílias, sem barreiras, sem esquemas formais, sem justificações, acontecem encontros profundos, que vão para lá do que se passa com os filhos e em que me vejo chamada também eu a ser Mãe. Dos pequenos e dos grandes.

Começo esta semana grata por todas as Mães e todos os Pais dos meus alunos. Desejando aprender com a potência do seu amor pelos filhos. E pedindo para mim “um coração grande e indomável, que nenhuma ingratidão possa fechar e nenhuma indiferença possa cansar” (Grandmaison).

Madalena Fontoura

9 de fevereiro de 2015

Certeza e Missão, por Madalena Fontoura

Por estes dias, há uma sucessão de datas que nos fazem pensar na escola católica: 28 de janeiro, dia de São Tomás, 31 de janeiro, dia de São João Bosco, 4 de fevereiro, dia de São João de Brito.
Porque é se fizeram escolas ao longo da História da Igreja? E porque é que continuam a fazer-se hoje? Na origem de cada uma está sempre uma missão e uma certeza.

A missão é uma paixão pelo humano. Uma paixão única e inconfundível, muito mais do que uma inclinação de personalidade, ou um interesse profissional. É a paixão de quem olha o outro, a partir da própria experiência de ter sido elevado, tornado novo, redimido.
Cristãos tornam-se fundadores, freiras e monges fazem-se professores, raparigas e rapazes seguem vocações de entrega à educação, mentes brilhantes aceitam trilhar a estrada humilde e grandiosa do ensino aos mais novos. Todos têm em comum sentir-se feridos pela pobreza. Não só a pobreza de quem não tem pão ou teto, mas a falta de horizonte, de conhecimento do mundo, de ferramentas para ler a realidade e entendê-la.

A certeza é aquela ingénua e potente, humilde e segura, comovida e alegre confiança, que nos vem de saber três coisas: fomos criados pela iniciativa de Deus e por isso sabemo-nos amados, necessários e herdeiros de tudo o que existe; toda a realidade é criação de Deus e por isso foi feita à medida da nossa capacidade de a conhecer e compreender; fomos salvos e por isso nenhum erro, da inteligência ou da vontade, tem a última palavra.
As escolas com que a Igreja enriqueceu o mundo foram sendo lugares de encontros fecundos entre mestres e aprendizes, lugares de crescimento humano e de liberdade criadora.

O desafio mantém-se. A pobreza de conhecimento já não é o analfabetismo ou a impossibilidade de ir à escola, mas a tendência para aceitar como certo tudo o que é de apropriação fácil e formulação atraente; a tentação de se contentar com o superficial e não ir mais fundo; o brilho do falso; o ruído do oco.
Por isso o desafio da escola católica hoje é mais do que ensinar com métodos eficazes, ou catequizar em paralelo com o ensino. O desafio é o da verdade. A verdade das coisas, o seu significado, a sua relação umas com as outras. O desafio é libertar-nos do fascínio pelo nada, que ocupa o espírito e condiciona a vontade. O desafio é repovoar o presente com o legado dos “gigantes” que nos precederam para que não nos pensemos desligados, à deriva, sozinhos.

O desafio está nas leituras que propomos, na história que contamos, no modo como fazemos ciência, na arte que ensinamos. O desafio está nas sugestões de tempo livre.

O desafio está, por isso, antes de mais, no que lê, no que vê, no que se dispõe a aprender, no que vive, o próprio professor. E essa é hoje uma das grandes marcas da escola católica: ser um lugar de encontro, onde os adultos se estimam e descobrem amigos, porque mutuamente se encorajam a não se deter, a ir mais além. Pelo bem dos seus alunos e pelo seu próprio bem.


Começo a semana, querendo conservar limpas a certeza e a missão que me fazem amar a escola. E desejosa de que o começo de cada dia seja um sim à verdade, que torne fértil o terreno do meu coração.

Madalena Fontoura